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Bióloga brasileira integra hall da fama da ONU ao proteger araras-azuis

A bióloga Neiva Guedes fundou o Instituto Arara Azul


Neiva Guedes, uma bióloga brasileira

que faz um trabalho em prol da preservação das araras-azuis, integra o hall da fama da ONU Mulheres, braço das Nações Unidas que promove o empoderamento da mulher e igualdade de gênero.


Instituto Arara Azul

Os estudos da profissional a levaram a fundar o Instituto Arara Azul, entidade que desenvolve técnicas para a criação de ninhos artificiais em condições perfeitas para que essas aves se reproduzam. O trabalho também busca conscientização da população contra a caça ilegal da arara-azul. Ela buscou salvar a espécie da extinção e conseguiu.


Bióloga formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Neiva fez mestrado em ciências florestais e é também doutora. A princípio, a pesquisadora queria fazer medicina, mas, quando o pai faleceu, teve que encarar outra realidade. "Minha mãe e meu pai tiveram seis filhos. A mais nova estava em gestação quando ele morreu. Tive que trabalhar para ajudar em casa. Comecei a fazer biologia porque era o único curso que me permitia trabalhar de dia e estudar à noite", explicou.



Luta contra a extinção

A bióloga se capacitava em conservação da natureza quando avistou uma árvore seca com araras-azuis. Naquela ocasião, há mais de 30 anos, seu professor disse que os animais estavam fadados à extinção. Neiva fez ali uma promessa que se cumpriu em 2014: não deixaria as araras-azuis desaparecerem.


Precisei buscar informações e estudar as araras-azuis na natureza. Naquela época, não tinha método para estudo. Tinha eu, uma mulher no Pantanal sem ser de lá. Fomos montando os métodos ao longo do trabalho. Não havia referência no mundo.

A primeira etapa da pesquisa consistiu em mapear ninhos da espécie no Pantanal. Para isso, Neiva deu de cara com o primeiro obstáculo. O ano era 1990 e a pesquisadora não tinha transporte adequado para se locomover pela região. Andava de carona, trator, cavalos. Não tinha independência para se mover porque dependia a ajuda de terceiros. "Fui até montadoras e todos me negaram carros", relembrou. "Até que fui a uma palestra e um engenheiro da Toyota ouviu minha necessidade e levou ao chefe de engenharia da montadora. Me cederam um carro de teste para eu trabalhar por um ano. Virei piloto de teste no Pantanal. Essa parceria existe até hoje", acrescentou.


A dificuldade financeira e falta de gente treinada também foram dificuldades do início do projeto. A falta de gente capacitada, inclusive, obrigou a bióloga a permanecer em campo até durante suas gestações.


"Engravidei e não tinha quem me substituísse no trabalho. Tive que ir a campo até os seis meses de gravidez para treinar uma bióloga e acabei pegando uma infestação de carrapatos. Perdi meu primeiro filho. Era um menino. Isso me deixou muito triste por um tempo. Mas logo tive que retornar ao campo. Engravidei novamente e, dessa vez, tive dengue. Então, foram duas perdas bem traumáticas para mim", contou.


Mais tarde, Neiva teve uma menina. A criança nasceu prematura, mas sobreviveu e hoje tem 19 anos.


As perdas pessoais foram baques dolorosos, mas não afastaram a pesquisadora do trabalho com as araras-azuis. Entre os problemas que potencializavam o risco de extinção da espécie estava a falta de ninhos.


A cientista recebeu a notícia de sua entrada no hall da fama da ONU Mulheres com surpresa. A honraria ocorreu depois de a pesquisadora ter sido homenageada por Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica. A imagem de Neiva ilustrada como uma personagem de gibi com uma arara-azul nas mãos viralizou. Foi então que o trabalho ecoou para o mundo.


"Só tomei conhecimento disso no fim de setembro, depois de uma matéria que falou que eu estava no hall. Até achei que era fake news. Mas aí eu vi que tinha entrado depois do desenho que Maurício de Souza fez de mim. Ser retratada por ele foi marcante. Isso joga mais luz sobre nosso trabalho. Leva o conhecimento do que a gente faz para outros públicos. Sempre digo que não trabalho por reconhecimento, prêmio ou dinheiro", destacou a bióloga.



Embora tenha tido o trabalho de uma vida reconhecido, Neiva alerta para os riscos que as araras-azuis ainda estão expostas, como as mudanças climáticas, as queimadas e a falta de financiamento para pesquisa, além da falta de políticas públicas de proteção animal.


"As araras-azuis são uma espécie mais frágil. As outras grandes araras comem sementes e frutos em geral. Comem diversificado. A arara-azul só come castanha de coco e bocaiuva. Ela saiu da lista das espécies ameaçadas em 2014. Foi uma vitória e resultado do nosso trabalho se conservação. Porém, hoje isso precisa ser reavaliado. Essas queimadas, esse período de seca... Isso afeta demais as araras", disse.


A cientista lembra que, além do trabalho do Instituto Arara Azul, existem outras pesquisas no Brasil que precisam de investimento e reconhecimento. Cada vez mais à frente desses trabalhos estão mulheres cientistas e seus resultados são impressionantes.


As mulheres têm feito muita coisa importante na ciência. Elas conseguem fazer multitarefas. Cuidam da pesquisa e ainda se dividem com a casa. A elas, digo que continuem lutando e procurando mostrar seus trabalhos. É só gritando e mostrando nossos resultados que vem a credibilidade. Mas precisamos melhorar esse caminho das mulheres. As pessoas têm que acreditar. Não desistir do sonho. Tem que correr atrás. Ir à luta.
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